Vá ver a Praça da Liberdade, vá.

16 de setembro de 2009

Se você mora em Belo Horizonte e há muito tempo não vai à Praça da Liberdade, então vá.
Vá sentir o cheiro dos manacás em flor.
Vá ver o canteiro de margaridinhas tímidas, espiando as roseiras rubras que se oferecem maduras e exuberantes nas esquinas dos canteiros.
Repare aquele casal de velhinhos, que nem se falam mais, mas que ainda compartilham o mesmo olhar terno para o encontro das crianças com os pombos e os cães.
Veja se ainda encontra por lá, aquele soluço adolescente da jovem que perdeu o amor. Diga-lhe que outros ainda virão, (mas, não lhe diga que igualmente irão embora). Choram com ela os pinheiros centenários, que não se prestam mais a natais. Ressequidos, mas firmes, não se furtam a compor o cenário melancólico.
Que dignidade têm esses pinheiros!
“Por que o chão está cheio de flores”? Pergunta o garotinho.
“É que terminou a florada”, responde solene o pai.
E o garoto indiferente à resposta, abre os bracinhos, liga os motores e sobrevoa o campo repleto de Tipuanas amarelas.
Atente para os enamorados que clicam suas máquinas, tentando congelar seu instantâneo amor.
Observe como Bernardo Guimarães guarda estático e sereno aquele pinheiro mais alto, para que não assedie as estrelas.
Veja se ainda voltou por lá aquela mãe zelosa da infância e que ensina aos filhos a pular amarelinha, a jogar cinco marias, a brincar de esconde-esconde, sob o olhar atento dos pais e complacente dos avós.
Persiga de mansinho um pássaro, caso ele caminhe a seu lado. Eles permitem. Dê comida aos pombos, eles agradecem em rasante alegria.
Aproveite também para visitar os pavilhões por lá montados, que ilustram com textos, vídeos e depoimentos, a história da praça, seu nascimento, mudanças e futura utilização.
Serão cinco os novos espaços culturais à sua volta:
Centro Cultural Banco do Brasil (antiga secretaria de Estado e Defesa Social); o Museu das Minas e do Metal (antiga secretaria da Educação); Memorial Minas Gerais (antiga secretaria da Fazenda); Espaço do Conhecimento( anexo da secretaria de Educação) e o Centro de Arte Popular ( antigo Hospital São Tarcísio).
Sem necessidade de grandes construções midiáticas, de vanguarda, a cidade vai se tornando mais flexível, reinventando novos usos culturais para antigas edificações.
O conceito de “cidade flexível” do arquiteto Christian Portzampark, (encarregado da reurbanização de Paris por Sarkozy), entende que as grandes metrópoles devem ter o centro mais articulado com a periferia, as ruas mais valorizadas que as grandes vias, mais parques, arquipélagos verdes, e um ótimo transporte coletivo.
Não podemos deixar de reconhecer que B.H. tem dado seus passos para uma maior democratização cultural.
Ao lado da revitalização do centro, com a reutilização dos cines Brasil, e Paládio, a ampliação dos passeios, fazendo “caminhos” para melhor acolher os pedestres, o tombamento da Praça Raul Soares, o sucesso do Mercado Central, do Museu de Artes e Ofício, são exemplos de que a cidade se reestrutura culturalmente.
Como vem enfatizando o escritor Affonso Romano de Sant’Anna, é preciso repensar a noção de centro e periferia, e abrir novas possibilidades para a circulação do conhecimento.
A Praça da Liberdade passa a compor o circuito cultural da cidade.
Não é preciso vestir o último modelito de ginástica para sua caminhada.
A praça é simples, mas acolhedora.
Também não se restrinja às suas extremidades, adentre-se por ela, sinta a poeira molhada das fontes, e verá como isso muda nosso código perceptivo.
Então, vá. Nos encontramos por lá.

Maria Luiza Gaetani

Fonte: Maria Luiza Gaetani

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