Sobre o tempo e o “gerundismo”

9 de dezembro de 2009

Sobre o tempo e o “gerundismo”

Julia Andrade Ramalho-Pinto*

Você já deve ter ouvido expressões como “vou estar te enviando” e “vou estar fazendo”, essas falas têm causado tanto incômodo às pessoas que se chegou a denominar este hábito de “gerundismo”. Esse fenômeno linguístico refere-se muitas vezes ao emprego errado do gerúndio, mas, mais do que isto, como uma “febre”, um “vício de linguagem”, ouvimos cada vez mais as pessoas empregando o gerúndio quase como a única forma verbal possível para os diálogos. Penso que tal uso não corresponde somente a uma aplicação inculta e viciada da língua, mas de fato, de uma percepção do tempo no mundo de hoje.

Vivemos num tempo onde o instante se coloca a nós como a unidade a ser vivida. Queremos que as coisas aconteçam no agora, não temos tempo para falar e pensar no ontem e nem no amanhã. Vivemos num tempo do instante: de mensagens instantâneas, de decisões instantâneas, de vida instantânea. Cada vez mais munidos de tecnologia, (vejam o que nos proporcionam nossos telefones conectados, agora, à internet) temos a sensação de que nada pode demorar mais do que alguns segundos para acontecer. A nossa percepção do tempo mudou. Se antes (talvez uns 20 anos atrás), dizíamos que algo era longe quando se demorava tempo para chegar, hoje, tempo e distância não estão mais entrelaçados um à outra. Posso estar em Belo Horizonte e enviar um “oi” para Nova York neste instante, ou se preferir, posso pegar um avião que em poucas horas estarei lá. Com o avanço da tecnologia, as distâncias diminuíram e o tempo é cada vez mais vivido no presente, e o instante passou a ser sua realização última.

Esta percepção do tempo descolada da idéia de espaço produziu em nós uma maior aceleração, nos imputando um senso de urgência, uma “patologia” temporal. Não se pode deixar para amanhã as coisas que podem e devem ser feitas agora (mesmo que, muitas vezes, não saibamos exatamente o que é urgente). Parece que estamos presos a um presente onde precisamos viver intensamente o hoje, estamos vivendo um “presentismo”. Neste modo de vida quase não nos lembramos do ontem, e o amanhã se torna praticamente inimaginável. Não temos mais tempo para construirmos uma narrativa, uma estória que se referencia ao passado como, também, não conseguimos planejar e projetar o futuro. Antes, o Homem buscava a imortalidade, dizíamos que era importante que ele plantasse uma árvore, tivesse um filho e escrevesse um livro. O que caracterizava estes projetos era o fato de eles serem de longa duração, exigirem envolvimento, comprometimento, persistência, e visão de longo prazo. Hoje, estas noções parecem estar desaparecendo e, como bem disse Bauman, que o Homem parece ter perdido sua pretensão de imortalidade. Vivemos o “presentismo”, não temos por que nos ocupar do futuro se não almejamos mais a imortalidade. O que de fato o Homem busca agora é não morrer! Como solução a esse ideal, parece que, assim, vamos nos prendendo cada vez mais ao presente.

É neste contexto que o uso exagerado do gerúndio tem encontrado terreno, como uma moda, uma tendência – “estamos usando o gerundismo”. Nessa forma verbal a ação começa agora e vai sendo realizada. Ele nós dá uma idéia de processo e, acima de tudo, de continuidade daquele instante que está se instalando. Quando ouvimos alguém falar no “gerundismo” não costumamos pensar que, de fato, o gerúndio representa o que a pessoa “está fazendo”. Assim, quando a mocinha de telemarketing nos diz que ela “está enviando”(adequadamente) ou “vai estar enviando” (de forma viciada) é porque, de fato, enquanto ela conversa conosco, concomitantemente, digita no sistema do computador uma ordem de serviço para que nosso problema seja solucionado. A atividade já está em processo, não é uma atividade que será feita no futuro, é da atividade que se inicia naquele instante que ela fala. Se ela dissesse, eu enviarei, isto significaria que ela iria fazê-lo num momento à frente, que poderia ser no mesmo dia mais tarde ou no dia seguinte, ou na semana seguinte, etc. Assim, o “gerundismo” seria um sinal de que as pessoas estão vivendo cada vez mais no presente e buscando expressar cada vez mais o instante e o processo que se desenrola deste.

Pode-se, assim, pensar que não se trata de parar de empregar o gerúndio, “corrigindo” a própria fala e a linguagem. Trata-se de se propor a viver para além do “presentismo”, e penso que isso se inicia com o reconhecimento da nossa mortalidade. Não poderemos viver eternamente, mesmo que nos enganemos por “estarmos sempre começando” algo, sabemos que a vida é finita. Portanto resgatar memórias e sonhar com o futuro talvez seja uma capacidade que nos torna um pouco mais humanos. Falar no passado significa valorizar a própria estória e os outros que fazem parte dela, significa reconhecer que se teve ajuda para chegar aonde se chegou, criar uma narrativa é a possibilidade de criar um sentido para aquilo que, além do instante, nos tocou ao longo da vida. Falarmos no futuro significa pensarmos o que queremos, significa responsabilizarmo-nos pelas nossas escolhas e atos feitos agora, porque eles terão conseqüências para nós e para outros num momento à frente. Significa pensar e agir sabendo que outros virão depois de nós, significa sonhar que nossos filhos ajudarão os seus filhos a construírem um mundo melhor, significa saber que as árvores plantadas darão sombras e frutos, mesmo quando não estivermos mais aqui, significa acreditar que nossas idéias poderão encantar e iluminar as pessoas quando não pudermos mais falar. Viver além do “presentismo” talvez seja a solução para pararmos de empregar insistentemente o gerúndio, e quem sabe, o início da busca de uma existência para além de nossos afazeres e necessidades, para além do instante, onde o tempo se torna infinito e reverbera para além de nós mesmos.

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*Psicóloga (psicanalista) e administradora, mestre em administração, professora universitária em cursos de graduação e pós graduação, consultora e sócia-diretora da Estação do Saber

Fonte: Júlia Andrade Ramalho Pinto

Um comentário

  1. Leandro Meireles disse:

    Interessante, apesar de não ser o que eu estava procurando, porém por ter prendido a minha atenção aproveitei para comentar.

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