Natal

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Então é Natal…

Julia Andrade Ramalho-Pinto*

O Natal é um momento que sinaliza um estranho sentimento de fim-e-começo. Nas festas de fim de ano, muitos ficam mais sensíveis e emotivos. Por mais que as pessoas digam que não ligam para o Natal ou o Ano Novo, nessa época todos são tocados por uma certa nostalgia, um certo vazio silencioso que se instala dentro de nós. Para alguns isto é um imenso desconforto; ficam melancólicos e desanimados. Outros, amparados nos eventos e agitações, procuram não ouvir o som provocado por este vazio; ocupam-se, organizam e consomem desenfreadamente. Mas o que temos para lembrar que possa nos deixar assim tão saudosos?

O fim do ano é antes de tudo um fim. Nessas datas temos um raro momento de poder perceber o tempo escorrendo nas nossas vidas velozes e fugazes. Assim, quase invariavelmente, todos são convidados a um balanço; pesando e medindo nossas perdas e ganhos, vamos refletindo sobre o que fizemos durante o ano. E, na soma dos Natais, vamos constatando o que fomos vivendo, e nos perguntamos se a vida foi tomando as cores e contornos que gostaríamos. Neste processo de avaliação, muitas vezes nos amparamos em ideais da nossa sociedade de hiper-consumo, usando parâmetros para medir nosso sucesso e desempenho que, confusamente, ainda associamos à felicidade. Avaliamos nossa felicidade pelo que consumimos e adquirimos durante o ano, pelas conquistas na carreira e status social que fomos alcançando. Sem tempo para refletir, muitos de nós nos esquecemos de nos perguntar o que de fato importa na vida, para além do que se coloca nesses padrões sociais.

Nossos votos são, assim, um convite a perder tempo! Num mundo onde não se tem tempo para nada, a não ser produzir, atingir metas e ter desempenhos, nós desejamos a todos que deixem que o tempo do sentir e refletir se instale. Desejamos que todos sejam capazes de resgatar a memória e as histórias que fazem a diferença na vida de cada um. Que cada um de nós se permita um espanto diante das banalidades e surpresas da vida. Que em 2010 aconteçam encontros de leveza e graça capazes de nos acordar da cegueira de nós mesmos, e que cada um consiga reinventar sua forma particular de felicidade.

Júlia Andrade Ramalho Pinto, Estação do Saber.

* Sócia-diretora da Estação do Saber, curadora e coordenadora do Projeto Estação Pátio Savassi, professora universitária em cursos de graduação e pós-graduação, mestre em administração (UFMG), administradora (UFMG), psicóloga e psicanalista (FUMEC-MG).

Fonte: Estação do Saber

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