Ler o Mundo de Affonso Romano de Sant`Anna

29 de junho de 2011

Ler o mundo é o mais novo livro que o poeta, cronista, ensaísta e administrador cultural Affonso Romano de Sant‟Anna lança pela Global Editora. Nele, o autor, que tem uma respeitável experiência na área do livro, da leitura e da biblioteca, oferece um amplo painel do que é “„ler o mundo”. Trata-se de uma obra em que o autor, com base em sua experiência na área da cultura, se articula para ler o ontem e o hoje a partir do espaço brasileiro. Seu olhar se estende de Mulungu (PB) e Morro Reuter (RS) a Faxinal do Céu (PR), passando por França, Colômbia, Egito, Alemanha, Nova York e Rússia, entre outros.

Presidente da Biblioteca Nacional durante seis anos (tendo passado por três presi-dentes da República e seis ministros da Cultura), presidente do Conselho do Cerlalc (Centro Regional do Livro e da Leitura para América Latina e o Caribe), criador do Sistema Nacional de Bibliotecas e do Proler, Affonso Romano de Sant’Anna sempre batalhou pela instituciona-lização de uma “política cultural”.

Ler o mundo é uma obra em três níveis: a crônica, o ensaio e o depoimento histórico. Assinale-se logo que é também um trabalho transdiciplinar. Aí estão as relações entre cinema e leitura (“Central do Brasil”, “Ararat”, “Narradores de Javé”), leitura e antropologia (“Ensinando Hamlet aos primitivos”), leitura e religião (“Como Deus fala aos homens”), leitura e terapia (“A cura do real pela ficção”), leitura e ecologia (“Ler a natureza”), leitura e política (“Biblioteca, alguns prefeitos são contra”), leitura e tecnolo-gia (“Leitura como Second Life”) e outros tópicos, como leitura e educação, leitura e vida social, leitura e guerra, cultura e televi-são, mas, sobretudo, a constatação de como a leitura modifica a vida das pessoas e das comunidades.

Na terceira parte do livro Affonso Romano de Sant’Anna registra o que foi assumir a Biblioteca Nacional em plena crise decorrente do desmantelamento de várias instituições culturais feitas pelo governo Collor. Narra como a primeira reunião da dire-toria da FBN terminou no telhado do prédio para que seus auxiliares vissem a extensão e a profundidade dos problemas, assim como conta o que foi enfrentar o corporativismo retrógrado, a luta para restaurar o prédio central, conseguir novas salas em ou-tros, iniciar a recuperação do Anexo, modernizar a área de informática da instituição, criar um conjunto coral e ver a frequência de leitores multiplicada. E mais: dar início à exportação da literatura brasileira, preparar a Feira de Frankfurt (Alemanha) e o Salão do Livro (França). Pouco tempo depois de assumir a presidência, a Biblioteca Nacional já era considerada a instituição federal que melhor funcionava no Rio de Janeiro e foi avaliada como um case de sucesso pela Fundação Getúlio Vargas. Pessoas que havi-am roubado livros da instituição começaram a devolvê-los e aposentados se ofereciam para trabalhar gratuitamente na entidade.

Enfim, em Ler o mundo Affonso Romano de Sant’Anna toca nos paradoxos da cultura brasileira: enquanto os bandidos e marginais da favela do Pereirão pediam a expansão do Proler, o ministro da Cultura Francisco Weffort fazia tudo para desesta-bilizar esse programa. Neste livro, Sant‟Anna explica as causas de sua demissão (“Que ministro é esse?”), reproduz editoriais da época de alguns jornais (Jornal do Brasil, O Globo, Correio Braziliense, O Estado de S. Paulo) e transcreve a carta de José Sa-ramago comentando sua saída da FBN.

Talvez a resposta que o autor deu a James Billington, diretor da famosa Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, sintetize a razão do sucesso da equipe que com ele esteve à frente da FBN. Indagado insidiosamente pelo diretor da maior biblio-teca do mundo, sobre quais os maiores problemas na direção da Biblioteca Nacional do Brasil, Sant‟Anna respondeu: “Eu não trabalho com problemas, trabalho com soluções”.

Ler o Mundo
Afonso Romano de Sant`Anna
248 pgs
R$ 39,00


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