Novos laços amorosos

5 de junho de 2012

Estação do Saber entrevistou Paulo Ceccarelli para saber mais sobre os “novos laços amorosos”. Veja abaixo nossa conversa:

Estação do Saber: O que caracteriza os “novos laços amorosos”?
Paulo Ceccarelli: Os valores da sociedade estão sempre mudando, como a história nos mostra. Os “novos laços amorosos” são formas de ligações afetivas entre as pessoas que escapam ao modelo tradicional. Os movimentos feministas em muito contribuíram para se repensar as posições sociais dos homens e das mulheres, permitindo que os relacionamentos mudassem.

Estação do Saber: É possível pensar que estes relacionamentos de hoje se espelhem no tipo de vida contemporânea? Uma vida ativa, imediatista, do excesso, de sempre querer algo diferente e novo?
Paulo Ceccarelli: Sim, o modelo consumista também influência os laços amorosos, mas não é regra. As relações afetivas tendem a reproduzir os valores da sociedade de consumo: em muitos casos, as pessoas tornam-se objeto de consumo.

Estação do Saber: Podemos perceber um número cada vez maior de famílias em que as mulheres estão sustentando a casa e os homens estão realizando trabalhos domésticos. Quais são as consequências dessa estrutura familiar na criação dos filhos? Pelas suas pesquisas e vivência de consultório, essa mudança está sendo bem assimilada por pai, mãe e filhos?
Paulo Ceccarelli: É um grande equívoco basear-se no modelo tradicional. O que determina a qualidade da estrutura familiar são os laços que unem a família. Acho que poderíamos chamar de “laços bons” aqueles nos quais as pessoas envolvidas são respeitadas em suas singularidades.

Estação do Saber: Temos relatos de relações homossexuais desde a Roma Antiga. Há pesquisadores que afirmam que, no futuro, a grande população será bissexual. Em 2011, o STF aprovou a união homoafetiva. Como um psicanalista vê a homossexualidade e a bissexualidade, o que há de natural, orgânico e de “escolha” nisso?
Paulo Ceccarelli: Desde que o homem é homem, existem relatos de relações do mesmo sexo. A palavra homossexualismo é uma invenção, juntamente com várias outras nomenclaturas que datam da segunda metade do século XIX. A homossexualidade, a heterossexualidade ou a bissexualidade são destinos pulsionais, igualmente legítimos, que se constroem a partir do nascimento da criança nas relações familiares. Não há nada de orgânico ou genético nas inúmeras manifestações da sexualidade humana. Não acredito que a população será mais homossexual ou bissexual do que sempre foi: o que está acontecendo é que essas relações estão mais visíveis para a sociedade.

Estação do Saber: Você tem pesquisas ou relatos de famílias homoafetivas com filhos? Quais são os principais problemas que essas famílias têm enfrentado na criação dos mesmos? Como essas crianças têm conseguido lidar com o preconceito e como vão se estruturando? Há impactos significativos na formação psíquica da criança?
Paulo Ceccarelli: Não há impactos particulares na construção psíquica das crianças criadas por casais homoparentais. Na verdade, se as crianças sofrem preconceito, há apenas impactos nas relações sociais. Para a criança tanto faz ter um pai e uma mãe ou dois pais (ou duas mães), isso não tem mais consequências do que ser criado apenas pelo pai, ou apenas pela mãe, pelos avós, por uma tia ou no orfanato.

Estação do Saber: Sendo você pesquisador transcultural, como vê a questão da sexualidade e dos novos laços amorosos na cultura oriental (Japão e China) e na cultura ocidental?
Paulo Ceccarelli: Existe muita diferença, mas podemos dizer que as relações afetivas de uma cultura estão ligadas ao sistema de valores daquela cultura. O que diferencia a cultura ocidental é essencialmente o sistema de valores judaico-cristão.

Estação do Saber: Temos visto vários relacionamentos que surgem na internet. Será que realmente é possível conhecer uma pessoa ou apaixonar-se por alguém através do computador, mesmo as pessoas estando separadas por muitos quilômetros de distância? Esse tipo de relacionamento pode dar certo?
Paulo Ceccarelli: Não possuímos nenhuma garantia de que qualquer tipo de relacionamento vai dar certo; nada garante que um longo relacionamento antes do casamento faz dar certo o casamento, por exemplo. A internet pode, sem dúvida, facilitar o contato, um encontro. Mas, repito, em termos de relacionamento não há garantias.

Por Camila Alvarenga

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5 comentários

  1. Mario Cleber disse:

    Gostei. Perguntas diretas e respostas concisas, claras e expicativas. Vem tirar duvidas sobre os mitos da sexualidade. É importante reforçar a ideia da criação dos termos homo e heterossexuais. O psicanalista conclui bem sbre o fato que não existem garantias de um relacionamento duradouro e feliz. Constrói-se. Dimensionou bem a pouca influência sobre a criança o fato de ser criada num lar tradicional ou com homoparentes (neologismo) ou até em um orfanato. Orfanato? Bem, faltou explicar melhor este ultimo.

  2. Jamily Nacur Rezende disse:

    Paulo bom dia. Parabéns pelos seus cometários. Aquardamos sua exposição no próximo dia 14. Abrs. Jamily

  3. [...] Aqui você confere a entrevista feita pela Estação do Saber com o palestrante Paulo Ceccarelli. Tweet [...]

  4. Estação do Saber disse:

    Boa Tarde!
    Mario,
    Obrigada pela contribuição.

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