A PRESENÇA DO TOXICÔMANO NA CONTEMPORANEIDADE UM APELO AO CORPO

28 de março de 2016

Lilany Vieira Pacheco
Os tempos atuais têm revelado aos psicanalistas a necessidade de discutir o modo como os sintomas contemporâneos demonstram articulações idiossincrásicas entre “as palavras e os corpos”. Como afirma (SANTIAGO, 1999)
(…) esses tempos se caracterizam pela importância, sem precedentes na história da civilização, de uma certa visão do corpo, cuja razão última deve ser imputada à maneira como a ciência se faz presente, em nosso dia – a – dia como discurso. Ao ser confundido, ora com sua imagem, ora com o funcionamento de um organismo, o corpo passa a ser objeto de manipulações, as mais diversas, adquirindo, nesse mesmo movimento, o valor de um artefato do mercado .
A toxicomania como uma “nova forma de sintoma” mostra claramente o corpo como uma questão a ser tratada pela Psicanálise. A presença do toxicômano no mundo contemporâneo coloca em cena um personagem que é reconhecido, muitas vezes, pela marca da droga em seus corpos.
Assim, associa-se cotidianamente o toxicômano com um corpo esquelético, um corpo tatuado, um corpo marcado por cicatrizes, um corpo cheio de picos, etc. O toxicômano exibe muitas vezes, um corpo degradado, tal como pode ser visto nas praças européias, destinadas ao livre uso de drogas, onde testemunha-se a obscenidade dos corpos, muitas vezes mutilados, exibidos em praça pública. Em outra vertente, registrou-se recentemente, o aparecimento de um movimento oriundo do mundo da moda, a onda “heroína chic”, identificando o modelo consumível aos corpos esqueléticos e lânguidos de “top models” drogados.
Essas evidências já haviam sido mostradas por Freud em O mal-estar na civilização (1930), quando distingue a intoxicação das saídas substitutivas por se constituirem um modo de tratar a pulsão pela via da sensação e não pela via do inconsciente, ou seja, tratar a pulsão com o corpo. Aponta o êxito desse artifício pela grande influência que tem sobre o corpo, sendo considerada por ele como uma das formas mais rústicas, mas ao mesmo tempo mais eficazes de anestesiar o indivíduo diante das tarefas árduas da vida em civilização.
As intoxicações constituem-se em um modo de tratar o real da pulsão pela via da sensação, pela alteração química, encontrando um atalho que leva a uma satisfação artificial, poupando o sujeito de ter que encontrar uma saída para tratar a impossibilidade de que a pulsão encontre o objeto de sua satisfação pela via da fantasia. Nesse sentido MILLLER (1992), adverte para o fato de que o objeto droga distingue-se do objeto causa de desejo, por se apresentar ao sujeito como um objeto causa de gozo.
Como se vê, trata-se de respostas técnicas que servem como meio para o manejo dos problemas colocados pela civilização, marca comum das novas formas do sintoma, onde um “fazer com o corpo” se coloca em lugar do “dizer” e, como elucida Freud, com a intoxicação, encontra-se um modo de negar a existência do inconsciente fazendo-se um apelo ao corpo.
O toxicômano se interessa pelo corpo, o corpo máquina, o corpo embalado pelo produto. O corpo para o toxicômano é, portanto, um corpo para gozar. O toxicômano consegue, com a droga, um gozo artificial que passa exclusivamente pelo corpo próprio, fazendo da droga um parceiro que o livra de ter que se haver com os impasses decorrentes da “inexistência da relação sexual”.
A clínica permite a constatação, de que as drogas, ao prestarem esse serviço ao sujeito, não o faz sem ônus, pois seus efeitos recaem, obviamente, sobre o corpo, o corpo organismo, que, sobrecarregado com a produção de um gozo artificial, começa a entrar em falência. Assim, aqueles que se dirigem aos tratamentos destinados a usuários de drogas, queixam-se de se encontrarem em um estado no qual não podem passar sem a droga, mas já não suportam mais os seus efeitos sobre seus corpos.
O contato com o grupo Alcoólicos Anônimos para a realização de minha dissertação de mestrado ofereceu-me a oportunidade de fazer algumas observações que ilustram a questão do corpo na toxicomania. Um primeiro aspecto a se notar é o traço do álcool no corpo desses indivíduos que, mesmo estando há vários anos em abstinência, portam a marca da alcoolização em seus corpos. Um outro aspecto relevante é a afirmação corrente nos depoimentos dos AAs, de que pararam de beber, por terem sido tomados por uma certeza íntima de que a bebida iria matá-los, pois, em um dado momento, o corpo anestesiado pela bebida gritou por socorro, trazendo à cena, todos os acidentes e situações que fizeram com que o corpo se apresentasse para o sujeito, não mais como fonte de gozo, mas um corpo que esbarra no real da castração, a morte.
A clínica psiquiátrica clássica, por sua vez, descreve, detalhadamente, a falência do corpo através de seus indicadores de diagnóstico tais como verifica-se nos índices de classificação do CID 10 e DSM-IV, por exemplo, onde percebe-se a busca de constatação dos estragos feitos pelo álcool para a caracterização do quadro de alcoolismo. Descreve tanto o corpo marcado pela dependência, onde a ênfase recai na noção biologicista de “dependência”, como descreve, também, a “síndrome de abstinência”, o deliriuns tremens, como um reforçador do caráter biológico da dependência, definindo, como conseqüência, as clínicas decorrentes dessa concepção biologicista, tais como as desintoxicações e a medicalização.
O peso da noção de “dependência”, na psiquiatria clássica, recai sobre o corpo fisiológico, o corpo organismo, “sendo, portanto, o sujeito da embriaguez a não ser mais que o lugar onde se desenvolve a reação físico-química entre um organismo e um produto “.
Mas de que corpo se trata, quando leva-se em conta a teoria psicanalítica, para se pensar a relação do sujeito com o objeto droga?
A psicanálise leva em conta uma estrutura subjetiva que articula três registros, a saber, o real, o simbólico, o imaginário. O corpo pelo qual a psicanálise se interessa é o corpo representado subjetivamente a partir da articulação desses três registros – a significação fálica. Assim, o corpo que está em questão para a psicanálise é o corpo erógeno, o corpo do Outro.
SANTIAGO (1992) ao comentar as referências lacanianas sobre a toxicomania esclarece-nos de que o ato toxicômano pode ser referenciado como uma “técnica do corpo” onde a “a particularidade da toxicomania reside na tentativa de recuperação do gozo que não passa pelo outro e, em particular, pelo corpo do outro como sexual. A toxicomania como uma técnica do corpo, caracteriza-se como um gozo que não passa pelo corpo do outro mas pelo próprio corpo”.
A droga apresenta-se ao sujeito como um artifício frente a uma falha da significação fálica, denominada por Lacan como “ruptura com o gozo fálico”. Assim, a droga presta-se a dar sentido à falha do Pai, constituindo, dessa forma, “o verdadeiro não dito do ato toxicômano”, na medida em que “guarda uma contestação da lei do pai”, que é “paga pelo sujeito com a ruína de seu próprio corpo” .
A discussão acima mostra-nos como, nas “novas formas do sintoma”, o dispositivo analítico se vê confrontado com um modo de gozo onde o “fazer” tornou-se preponderante em relação ao “dizer”. Cabe, portanto, ao psicanalista, colocar em curso um trabalho que permita a passagem do fazer ao dizer e, como conseqüência, a possibilidade de que apareça, a partir daí, o sintoma analítico, nos casos em que, na melhor das hipóteses, a toxicomania apresenta-se como uma variedade decorrente da clínica das neuroses.
Trata-se, entretanto, de uma clínica marcada pela exigência de que concentremos nossos esforços para a elucidação desses fenômenos já que as toxicomanias oferecem-nos o paradigma para pensarmos o futuro da clínica psicanalítica.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ENGEL, Jaques Vieira. Alcoolismo e hábito de beber. Rio de Janeiro: UFRJ, 1977 (Dissertação de Mestrado).
FREDA, Hugo. Da droga ao inconsciente in Subversão do sujeito na clínica das toxicomanias – Atas da IX Jornada do Centro Mineiro de Toxicomania, Belo Horizonte, 1996.
LACAN, J. Atas de Encerramento da Jornada de Cartéis in Letra Freudiana n.0.
LECOUER, B. O homem embriagado. Belo Horizonte: FHEMIG, 1992.
MILLER, J. A “Para una investigación acerca del goce autoerótico” In: SINATRA, E.S., SILLITTI, D., TARRAB, M. (comp.). Sujeto, goce y modernidad. Buenos Aires: Atuel – TyA, 1992 (I).
PACHECO, L. V. “Não pense, acredite e faça”: sobre as estratégias de construção da subjetividade nos Alcoólicos Anônimos. Belo Horizonte: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, 1998. p. 310. (Dissertação, Mestrado em Psicologia Social).
Pontuação de Hugo Freda no seminário “O Outro que não existe e seus comitês de ética”, de 02 de abril de 1997.
SANTIAGO, J. Drogue, science et jouissance: sur la toxicomania dans le champ freudien. Paris: Université de Paris – VIII, 1992. (Tese, Doutorado em Psicanálise).
SANTIAGO, J. Habitar ou manipular os corpos In Agenda do 1 semestre de 1999 da Escola Brasileira de Psicanálise – Minas Gerais.

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