O discreto charme das massas

28 de março de 2016

Por Marcelo Veras
Pensando nos dias turbulentos que atravessamos, lembrei-me dessa citação de Lacan em uma entrevista para o Magazine Litéraire:
“Quando eu escuto falar do homem da rua, [...] de fenômenos de massa e de coisas deste gênero, eu penso em todos os pacientes que eu vi passar sobre o divã em quarenta anos de escuta. Nenhum deles, em qualquer medida, era semelhante ao outro, nenhum tinha as mesmas fobias, angustias, o mesmo modo de contar, o mesmo medo de não ser compreendido. O homem mediano, o que é isto? Eu, você, minha porteira, o presidente da República.”
Parto dessa pergunta de Lacan para pensar o modo mesmo como Freud pensou os fenômenos de massa. Como se estrutura o laço social, se levarmos em conta os fenômenos de identificação e desidentificação? Duas referências clássicas nos auxiliam na resposta, o texto freudiano “A psicologia das massas” e o clássico de Ortega y Gasset “A revolução das massas.”
A noção de territorialidade, utilizada com frequência nos textos de Saúde Mental, foi tomada da biologia e da geografia (onde se encontra a geopolítica, como estudo da distribuição do poder em um território). O laço social é sempre um problema de território, ele é o espaço onde se efetuam as trocas sociais. Contudo, é preciso abrir um espaço para outra vertente, onde a vida individual como independência do sujeito possa ser preservada.
Na primeira vertente podemos dizer que o sujeito, ao ter acesso às atividades da cidadania e aos ideais aspirados pelo coletivo, está enlaçado na trama social. Esse laço é guiado por ideais que encontram sua plenitude no “bem estar biopsicossocial”, ideal maior do relatório da OMS sobre a Saúde Mental no mundo de 2001.
Porém, ao tomarmos a perspectiva de uma clínica que contemple a singularidade do gozo e da solução sintomática, percebemos que o laço social não é tecido pelos ideais.

A fragilidade do laço e o homem de massa
De que modo podemos interrogar a coletividade no mundo contemporâneo? Essa interrogação parte do fato de que os discursos vigentes não garantem necessariamente a adesão do sujeito ao laço social. Como resultado, temos cada vez mais a formação de comunidades de identificações débeis, que se mantém apenas por identificações imaginárias. Trata-se de uma debilidade em tomar a palavra a partir de um discurso estabelecido, permanecendo, desse modo, fragilmente conectado ao Outro.
Com os movimentos de rua atuais, percebemos que as novas formas de constituição do laço social não seguem o modelo de identificação ao líder, proposto no famoso capítulo VII do texto Psicologia das massas. Freud, quando pensou sua teoria da identificação, o fez em torno da figura do líder, que é inspirado na própria imago paterna. O problema atual é que a identificação ao líder implica em uma renúncia de gozo. Nesse sentido, a ascensão do hedonismo, impulsionada pela miragem capitalista do consumo, faz com que o sujeito dispense os grandes significantes que possam representá-lo para o Outro social.
Ou seja, o sujeito contemporâneo não busca os ideais, goza diretamente do objeto. Passamos dos grandes símbolos às grandes marcas das vitrines. Ao colocar o sujeito diretamente conectado com seu modo de gozar, o discurso capitalista se torna um obstáculo ao laço social
O momento em que vivemos não implica, contudo, uma anulação do modelo freudiano de associação em grupos. É possível constatar que a multiplicação de estilos de vida e o empobrecimento dos valores universais continuam sendo coerentes com a teoria freudiana da identificação. A diferença é que a falência das grandes instituições modelizadas por Freud – a saber, a igreja e o exército, tradicionais bastiões da ordem pública – abriu espaço, na deserção dos referenciais simbólicos que se seguiu, para a identificação ao semelhante e não mais ao líder (1). Trata-se de uma massa ainda mais amorfa do que a massa configurada pela identificação ao líder.
A partir dessa constatação, podemos cotejar a teoria da identificação freudiana com a crítica que faz o Ortega y Gasset sobre o homem de massa. Para ele, a questão da psicologia das massas é pensada sob a ótica da segregação. Sua obra mais importante, A rebelião das massas, prenunciou que o mundo, tomado pela técnica, forjaria as bases para a criação do homem mediano, no qual cresceria o horror ao anormal e à exceção. No pensamento de Ortega y Gasset, a massa é passiva, sem vontade nem critérios, o que leva à negação de duas das principais condições da democracia: a autonomia intelectual e a participação. Psicologicamente, o homem de massa é satisfeito e em plena sintonia com a homogeneidade e a indistinção social. Ele não tem nenhum projeto que lhe seja próprio e não faz nenhum esforço para uma realização pessoal, consumindo e gozando das mesmas coisas que os outros. Tudo que se afasta desse platô monótono da normalidade é percebido com desconfiança e facilmente se converte em alvo de segregação.
A massa conduz, inexoravelmente, ao apagamento da inquietude criativa. A rebelião das massas, sobretudo quando pensamos que ela foi escrita antes dos extermínios da segunda guerra, traz um importante alerta para os riscos da segregação e eliminação da anormalidade: “aquele que não é como todo mundo, que não pensa como todo mundo corre o risco de ser eliminado”.
Na obra de Ortega Y Gasset o protótipo do homem de massa seria, precisamente, o homem que só acredita no que é cientificamente normal, aquele que é definido e instituído pelas normas e cifras, distante de tudo que é exceção e extravagância. Homem “transformado em novo bárbaro (ironicamente) pela ciência”, diz ele em seu texto. Esse homem é construído através de cifras e medidas que são ligadas fundamentalmente, as suas características e evidências. O que se perde nessa manobra é precisamente o pequeno detalhe que faz a singularidade onde se aloja o sintoma. Avesso da evidência, o inconsciente é justamente o que engana. Ele é verdade mentirosa ou mentira verdadeira. Somente podemos falar em psicanálise quando nos separamos desse homem esquartejado em números.
É por isso que o momento é mais do que oportuno para revisitar o texto sobre a Psicologia das massas. Quando Freud o escreveu, já com os ventos do nazismo que dizimaria sua família remanescente na Áustria, ele o fez não como um profeta dos eventos futuros, mas a partir dos elementos lógicos que pode extrair de sua clínica e, sem dúvidas, das marcas deixadas em sua própria história pela segregação.
A lição 1 que aprendemos com o texto psicologia das massas é que para se odiar, segregar e mesmo matar em grande escala é preciso reduzir o outro a um traço. Daí os riscos que toda polarização descambe para o ódio insensato. O traço distintivo, qualquer que seja ele, é o modo como a massa apaga a complexa subjetividade de seu interlocutor, calando nele os labirintos e equívocos da trama de sentidos, para reduzi-lo à algo sem sentido, um simples portador de uma marca indelével a- dialético, para evocar o objeto lacaniano.
A lição 2 é que mais nos aproximamos da certeza absoluta, ou seja, aquela que não vacila com os argumentos, mais nos aproximamos de uma experiência de gozo. Ao colocar a trama do pensamento entre parênteses, Lacan separa o que é da ordem da certeza das chicanas da linguagem. Ou seja, tudo é provisório, a única certeza que me garante é que gozo. É uma boa direção para a clínica das psicoses, se há certeza irrefutável é porque aquela ideia não desliza na cadeia significante, ela está congelada como parte delirante do ser do sujeito.
E que lições nos falta aprender?
O mundo de Freud não era o mundo das mídias sociais ou da mídia televisa funcionando como outro absoluto. Meu interesse é tentar entender como esse novos instrumentos afetaram o modo como cada um se relaciona com o gozo e com o supereu. Rapidamente percebemos que o Facebook não é mais um instrumento de comunicação, ele é um instrumento de adição. O que faz com que pessoas fiquem conectadas 24 horas por dia não é a sede de saber e se manter informado, é o trabalho acéfalo e incansável da pulsão transformando os internautas em uma sociedade de adictos. É por aí que entra a vertente obscena do Supereu. Os psicanalistas já estão bastante cientes de que o Supereu freudiano não é como o Supereu de nossos dias. Em Freud ele torturava o sujeito privando-o do gozo, enquanto o sujeito contemporâneo é torturado por um Supereu que diz sempre que ele não gozou o suficiente.
O que antes parecia uma possibilidade de expressão tornou-se paulatinamente, e os últimos dias demonstram isso exemplarmente, um local onde o Facebooker se culpa por não ter gozado suficiente, ou da maneira correta. Ele não precisa mais das exigências da massa, se não postar algo ou reagir imediatamente ele mesmo se sente culpado por não participar do banquete identificatório.
Não creio que a função da psicanálise seja separar o homem de suas causas, mas sem dúvidas devemos trabalhar pela desidentificação. O charme das massas vem justamente dessa possibilidade que ela fornece ao sujeito de liberar seus pensamentos os mais ferozes com relação ao outro sem passar pela experiência da culpabilidade. Estar na massa alivia todo sujeito do peso do supereu, não é por acaso que toda manifestação de massa, por mais severa e dramática que seja o motivo, sempre acaba em uma celebração com aspectos dionisíacos. O que a festa não mostra é que o banquete em questão é sempre um desencontro, tal como os protagonistas que nunca conseguem se reunir para o jantar no filme de Buñuel que inspirou o título desse texto.
1 – Laurent, E., Politique de l´unaire

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