Gestão e Investimentos Culturais

Julia Andrade Ramalho-Pinto

Hoje percebemos que através da renúncia fiscal as empresas têm investido mais em cultura. Em 2001, uma pesquisa coordenada por mim sobre as ações de responsabilidade das empresas no Estado de Minas Gerais mostrou que os principais focos de ação delas eram cultura e educação. De lá pra cá, temos visto crescer o número de projetos culturais envolvendo a marca de várias empresas instaladas no Estado. Não há dúvida que vêm crescendo estes investimentos culturais.

Como pensar em gestão de projetos culturais num país em que se privatiza os investimentos em cultura através da renúncia fiscal? Na medida em que esta privatização ocorre, observa-se  a tentativa de implantação do modelo de gestão voltado para a produção também para a gestão de projetos na área cultural .

Uma questão crucial, então, se coloca: podemos gerir o projeto cultural como gerimos um outro projeto produtivo dentro de uma organização? Parece-me  que quanto à metodologia de planejamento, implantação do projeto, acompanhamento e controle de sua execução utilizada nas empresas produtivas, só temos a ganhar. As metodologias administrativas buscam melhorar a eficiência e a eficácia do resultado do trabalho.  Mas, pensar em cultura e em projetos culturais, requer pensar estrategicamente no que se quer obter com isto. Numa etapa anterior à própria gestão do projeto, cabe aos gestores das empresas, que investem em projetos culturais, se perguntarem: “Porque vamos investir em cultura?”Isto pode parecer simples, mas não é. É um ponto  chave que irá mostrar como se percebe a cultura: se como algo que tem um papel importante na construção de uma sociedade, ou como mais um instrumento da estratégia de marketing das empresas.

Talvez a pergunta a ser feita seja: investir em cultura alinha-se a quais objetivos estratégicos da empresa? Se temos uma empresa que realmente tem um modelo de gestão arrojado, contingencial, que busca fazer a diferença e navegar em seu “oceano azul”, ela não pode agir em seu ambiente e em sua sociedade sem se questionar  sobre o seu impacto sobre ambos. Produzir sim, dar lucro sim, mas o “como produzir” faz toda a diferença. Quando uma empresa lucra milhões e bilhões, seus gestores devem estar atentos para os impactos  no ambiente e na sociedade que ela produz. É por isto que a empresa deve ter uma parcela considerável de responsabilidade pela sociedade e o meio ambiente onde está inserida.

Assim, investir em cultura é investir em alguma coisa que se acredita ser importante para a sociedade como um todo. Não significa exatamente algo quantificável, como ocorre na visão pragmática de gestão, quando acreditamos que tudo tem que ser mensurável e quantificável para, a partir de números estatísticos, conseguirmos medir a nossa eficácia organizacional.

Isto é uma forma de saber, um “suposto saber” que, muitas vezes, tomamos

como uma verdade. Mas, investir em cultura talvez seja ir além do quantificável e mesnurável, que esta visão de gestão nos coloca.

Neste sentido, podemos pensar a cultura e suas expressões -como a arte, a música, a literatura, a filosofia-  com seus efeitos na cidadania, na capacidade de criação e na nossa saúde mental.  Como, então, quantificar os efeitos dos projetos culturais?  Podemos quantificar os impactos de um projeto cultural no grau de cidadania de um povo de uma nação? Ou no impacto do mundo simbólico e criativo das pessoas? Podemos quantificar como a arte ajuda a criarmos e recriarmos sentidos em nossa vida? Talvez possamos quantificar o número de pessoas que frequenta um projeto, os investimentos que foram gastos, mas isto pouco tem a ver com o seu impacto nos indivíduos e na sociedade. Nesse processo de privatização da cultura corremos o risco de, com a visão gerencial, nos atermos a uma visão míope sobre a importância dos projetos culturais para a sociedade e para os indivíduos que nela vivem. Corremos o risco de transformar a cultura apenas numa repetição de discursos já prontos, de fácil compreensão, e de grande presença de público.  Lembremos que, em vários momentos da história da arte tivemos obras e artistas, criativos e inovadores, que não tiveram público, foram incompreendidos, não tiveram grande aceitação em seu tempo, mas que nos deixaram obras hoje consideradas como patrimônio da humanidade.

O artista mostra através de sua arte a sua singularidade, cria e recria, é capaz de transformar o mundo que o rodeia, como dizia Picasso: ”Há pintores que transformam o sol numa mancha amarela, mas há outros que, graças à sua arte e à sua inteligência, transformam uma mancha amarela em sol.” E é por causa desta capacidade de transformação da arte, que não podemos nos ater apenas aos números que pouco expressam a possibilidade de cidadania, de simbolização, de invenção e criação da realidade, aspectos estes tão importantes para se pensar a cultura. Como dizia Affonso Romano de Sant’ Ana “o homem é um animal simbólico, carece de símbolos para expressar a poesia (como a arte) é uma forma não só natural mas cultural de expressar aquilo que a linguagem convencional e prosaica não consegue”. A partir do contato com a arte temos a possibilidade também de mudar nossa forma de ver o mundo, de criar e recriar novos sentidos, de talvez nos sentirmos mais humanos. E como medir este impacto do projeto cultural nas pessoas? Pensar a gestão cultural pode até ser pensar no quantificável, mas há que se ir muito além dele.

* Mestre em administração (UFMG), administradora (UFMG) e psicóloga (FUMEC-MG), sócia-diretora da Estação do Saber, professora universitária em cursos de graduação e pós-graduação, pesquisadora das ações de ética e responsabilidade social das empresas mineiras e consultora organizacional.

2 comentários

  1. Feliz Natal Julia e vcs todos!

    Venho só como musico/compositor ator da vida cultural de Belo Horizonte testimunhar da importencia de um projeto cultural,assim realisei um CD de musica instrumental autoral chamado de “7″ e com esse primeiro CD lançado o dia 7 de Dezembro 2010 no teatro municipal da biblioteca ,essa primeira experiença me mostrou ao decorrer do processo de realisaçao ,o quanto era importante essa oportunidade que a lei de incentivo a cultura proporciona.Nao somente por permitir aos artistas de se expressar e contribuir a vida cultural dentro do estado, pais como fora tbem,mas tbem a emportencia do envolvimento social e profissional ao redor de um projeto que pode parecer tao simple como dar luz ao CD ,que porem envolve muita gente!

    Meu portugues nao melhorou muito…..rsrsrsrs porem aqui esta meu depoimento,
    Obrigado

    Richard Mercier.

    http://www.myspace.com/musicofrancesrichardmercier

  2. Emmanoele disse:

    Boa tarde! acabei de conehecer o site,achei super interessante esse trabalho e gostaria de informaçoes sobre como formar uma parceria entre voces e a cia de artes que faço parte.
    antecipo-me em agradecimentos e fico no aguardo de um retorno.
    sem mais
    emmanoele fernandes – cia de artes intensa luz

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