Cultura é atitude: Responsabilidade Social e Cultura!*

16 de março de 2010

Por Júlia Andrade Ramalho Pinto**
*Conferência proferida no projeto “Estação Pátio Savassi” no dia 20 de outubro de 2007. Publicado no Livro “A Cultura vai ao Shopping” pela editora Argvmentvm.
**Mestre em administração (UFMG), administradora (UFMG) e psicóloga (FUMEC-MG), professora universitária em cursos de graduação e pós-graduação, pesquisadora das ações de ética e responsabilidade social das empresas mineiras e consultora organizacional.

O mundo ontem e hoje

Desde a invenção da máquina a vapor por James Watt (1776) e sua aplicação à produção industrial, mudou a concepção de trabalho, alterando a estrutura social e comercial a partir daquela época. No início do século XIX as mudanças se aceleraram e, em menos de um século, passamos a ter uma nova ordem política, econômica e social. Esse período, caracterizado como Revolução Industrial, se iniciou na Inglaterra e se alastrou por todo o mundo. Pode-se dizer que foi um período de uma maior especialização e fragmentação do trabalho, simplificação das operações de produção, buscando-se uma maior produtividade e aumentando o controle sobre a produção. Nesse período os chamados economistas liberais (James Mill, David Ricardo, Adam Smith) iriam sustentar a tese que a atividade econômica devia se afastar da influência do Estado, tornando a livre concorrência o postulado principal do liberalismo econômico que viria prevalecer até os dias de hoje.

Hoje vivemos numa sociedade que apresenta um impasse: a economia de mercado não cumpriu sua promessa de garantir um sistema de trocas razoável, e nem todos que participam do mercado têm a mesma força competitiva. Segundo o sociólogo italiano Domenico de Masi (1999), os dois grandes modelos econômicos que se confrontaram no século XX não ofereceram soluções para uma sociedade mais justa, isto é, o capitalismo demonstrou saber produzir riqueza, mas não como distribuí-la; enquanto o comunismo demonstrou saber distribuí-la, mas não produzi-la. O século XX não terminou bem, pois há uma enorme concentração de renda, os problemas sociais são de dimensões extraordinárias, com desigualdades agudas, além dos problemas ambientais alarmantes.

Neste contexto, observa-se uma maior integração das economias de mercado, o que vem sendo chamado de “globalização”. Na verdade, não há um consenso sobre o que seja de fato a globalização e quais seriam seus desdobramentos sócio-políticos.

Segundo o jornalista Thomas Friedman, autor do Best-Seller O mundo é plano, a globalização se apresenta como a esperança de se melhorar as oportunidades. Estaríamos vivendo num “mundo plano” onde interligamos os centros de conhecimento ao longo do planeta e, tecendo uma rede global

única, criando, assim, a oportunidade para que surja uma era notável de prosperidade, inovação e colaboração entre empresas, comunidades e indivíduos.

Contrariamente a esta visão, o sociólogo e cientista político José Luís Fiori (1997) acredita que a natureza do processo de globalização é desigual e descontínua. A globalização não é uma resultante exclusiva das forças de mercado, não é um fenômeno universal, inclusivo e homogenizador. Na verdade, o processo de globalização, já em marcha, tem mostrado que não foi capaz de distribuir riquezas, mas, ao contrário, concentra benefícios, não havendo uma fragmentação eqüitativa destes entre os vários participantes deste mercado globalizado. Embora a globalização seja um fato, ela é tudo menos global neste sentido de inclusão, ao contrário, ela tem sido parceira inseparável de um aumento gigantesco da polarização entre países e classes do ponto de vista da distribuição da riqueza.

Diante do fato do processo desigual e concentrador de renda, as Nações Unidas tem procurado um modelo alternativo de desenvolvimento que vá além do progresso econômico. Apenas discutir o avanço econômico é insuficiente diante tantos problemas que este modelo vem trazendo para os países e para o meio ambiente. Desde a conferência das Nações Unidas sobre meio ambiente e desenvolvimento em 1992, na chamada agenda 21, foram estabelecidos os princípios de um desenvolvimento sustentável.  Hoje, além da economia, os países discutem a interação das dimensões sociais, ambientais e institucionais na busca do o desenvolvimento sustentável.

E o Brasil?

Em 2005, as Nações Unidas elaboraram um relatório sobre o Brasil apontando seus principais desafios frente ao desenvolvimento sustentável (Desafios do Brasil, 2005). Entre os países participantes da ONU, somos a 5a maior população do mundo, temos o 14o maior PIB (Produto Interno Bruto) e o 63o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O Brasil não é um país pobre, mas injusto e desigual. Neste sentido, continuamos dentro do que vem acontecendo no mundo: produção de riqueza sem distribuição, ao contrário, com concentração.

Para monitorar alguns aspectos do desenvolvimento sustentável em nosso país, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2002, elaborou um relatório destacando alguns aspectos como: dimensão social (população, equidade, saúde, educação, habitação e segurança), dimensão ambiental (atmosfera, terra, biodiversidade, saneamento), dimensão econômica (estrutura econômica, padrão de produção e consumo), dimensão institucional (estrutura institucional, capacidade institucional).

Para abordar a relação do tema desenvolvimento sustentável e responsabilidade social, alguns pontos da dimensão social devem ser ressaltados, como: educação e renda.

Com relação à renda familiar per capta (IBGE, 2002), levantamentos do IBGE mostram que tem havido uma queda na participação na renda nacional de pessoas com renda de até um salário mínimo, mas mostram, também, um crescimento da participação de pessoas com renda acima de cinco salários mínimos, significando uma melhoria na participação das classes mais baixas na renda nacional e, por outro lado, uma maior concentração de renda nas classes mais altas.

Com relação à média de anos de estudo da população com mais de 25 anos de idade (IBGE, 2002), os estudos mostram que também tem havido uma melhoria no número médio de anos de estudo para a população brasileira, mas através da taxa de alfabetização – apesar de apresentar curva ascendente – percebe-se como ainda é relevante o analfabetismo entre nós. Percebemos uma melhora no tempo de estudo da população e na redução do analfabetismo, mas ainda em índices muito baixos para o desenvolvimento de “massa crítica humana”.

Dimensões sociais da participação cultural, ou cultura e desenvolvimento sustentável, não fazem parte do relatório de indicadores de desenvolvimento sustentável do IBGE. Podemos perguntar qual a importância da participação cultural para o desenvolvimento de um país?

Observa-se que um número significativo de países e organizações internacionais vem dedicando crescente atenção à produção de conhecimento sobre as especificidades e potencialidades das atividades diretas e indiretamente ligadas à cultura, em termos de valor adicionado, emprego, renda, receitas e demais variáveis socioeconômicas. Desde 1970, a França foi um dos primeiros países a incluírem a cultura no plano de metas nacional, enquanto Estados Unidos e outros países membros da Unesco vêm incorporando a cultura em suas estratégias de desenvolvimento social e econômico.

Embora o Brasil não tenha incluído a cultura nos indicadores de desenvolvimento sustentável, em 2003 o IBGE apresentou um “Sistema de Informações e Indicadores Culturais” com o objetivo de organizar e sistematizar informações relacionadas ao setor cultural, democratizando o acesso e contribuindo para a construção de um sistema de informação que possibilite a sua análise como setor produtivo. Além do esforço de melhor compreender as informações do setor cultural, no dia 04 de outubro de 2007, o Ministério da Cultura lançou o programa “Mais Cultura”, que alguns têm denominado de PAC (Plano de Aceleração) da cultura. Com este plano o governo pretende investir R$ 2,2 bilhões do orçamento da União e mais R$ 2,2 bilhões em parcerias. Os principais objetivos serão ampliar o número de pontos de cultura de 630 para 20 mil em 2010, como o de leitura (buscando zerar municípios sem biblioteca e baratear o custo de produção de livros, ampliando o acesso a eles), a difusão (através de cineclubes) e o de memória. Verifica-se assim, por parte do governo federal, uma intensificação na elaboração de planos e projetos culturais, visando aumentar a acessibilidade da população aos produtos culturais em regiões metropolitanas com maiores índices de violência e baixos índices educacionais, para que parte da população, hoje marginalizada, também tenha acesso aos bens e produtos culturais, enfatizando a inclusão social.

Nesse contexto de desenvolvimento, nosso país tem encontrado dificuldades de coordenar suas ações e muitas vezes acabam faltando recursos diante de tantos desafios de desenvolvimento da sociedade. Assim, as empresas, que participam e se desenvolvem através do mercado, têm sido chamadas a se responsabilizar pela sua participação nessa nossa sociedade. Contudo, o que se observa ainda é pouca preocupação por parte destas com o ambiente externo em que atuam. Verificamos que muitas degradam o meio ambiente, outras abusam da força de poder explorando o trabalho infantil e das mulheres, etc.; elas acabam não se implicando com a realidade da sociedade na qual estão inseridas e onde geram seus lucros. Na ausência de uma auto-regulação tanto no plano econômico quanto no plano social, as empresas que têm poder para agir em prol do desenvolvimento sustentável, muitas vezes, acabam não o fazendo.

Mas porque as empresas deveriam se envolver com os problemas sociais?

O crescimento do comércio mundial tem sido cada vez mais dependente das decisões de uma centena de grandes corporações: 2/3 do comércio é internacional, sendo 1/3 diretamente intrafirmas e 1/3, entre mega-corporações. Com relação às grandes empresas transacionais, existe algo entorno de 39 mil e 270 filiais. Conforme apontado por José Luís Fiori, destas, apenas 100 (0,3%) detém 1/3 do estoque mundial de capital e, ainda, 39 delas são norte-americanas e 19 japonesas. Além disso, dos 180 países existentes no mundo, aproximadamente apenas 100 recebem 1% do investimento direto estrangeiro, ou seja, os outros 80 recebem 99%, isto é, uma distribuição de recursos de investimentos entre os países, extremamente desigual. Parece-me que podemos dizer que, de fato, as empresas possuem um grande poder econômico.

O Estado brasileiro como muitos outros países latino-americanos vem reduzindo o  seu papel na economia à função de guardião dos equilíbrios macroeconômicos. Nesta economia de mercado o Estado não interfere tanto na economia e, não interferindo, acaba reduzindo seu papel na definição de prioridades, na implementação de políticas e incentivos, em oferecer proteção social às suas populações, em prestar serviços públicos mais elementares, ou mesmo em garantir a ordem e o respeito às leis. Abre-se, assim, um vácuo para que outros setores participem. Embora o papel do Estado seja primordial e muitas vezes insubstituível na gerência das questões sociais, ele tem se mostrado insuficiente.

Quanto aos indivíduos, sem dúvida, poderiam desempenhar papéis importantes, mas suas ações podem ser de pouca abrangência e seu alcance acaba por ser pontual. Na verdade, no Brasil o exercício da cidadania ainda é precário. Muitos não sabem quais seus direitos e suas obrigações e, neste sentido, a educação se torna a solução e também o problema para este ponto. Isto é, ainda temos dificuldade, diante tantos desafios educacionais, de implementar ações que busquem desenvolver os indivíduos como cidadãos.

Parece-me, então, que neste cenário pode-se pensar que as organizações acabam tendo importante função de complementaridade ao Estado. Elas agem, por exemplo, no ambiente, têm poder sobre este, sendo assim, podem também ser responsabilizadas pelo seu desenvolvimento e não apenas pela extração das condições de sua sobrevivência. O setor empresarial brasileiro acaba tendo condições privilegiadas de intervir na sociedade, uma vez que possui capacidade de mobilização, poder econômico e político. Ele passa a poder ser responsabilizado pelos problemas sociais, ambientais e acaba tendo potencial para desenvolver ações passíveis de serem replicadas por outros atores sociais.

Hoje sabemos que o homem é capaz de destruir a si próprio e ao planeta. Para lidar com isso, o filósofo Hans Jonas propõe uma nova ética, uma ética que se funda e acontece para além dos limites do ser humano, isto é, que afeta a natureza das coisas extra-humanas. Ele acredita que temos que agir de tal maneira, que os efeitos de nossa ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana autêntica, isto é, não devemos por em perigo a continuidade indefinida da humanidade na Terra. Acrescento que isto valerá tanto para nós, como indivíduos, como para as organizações enquanto um conjunto de indivíduos buscando um objetivo comum. Produzir ou oferecer serviços é inerente ao próprio negócio, mas como fazê-lo e quais os seus desdobramentos no ambiente devem ser urgentemente questionados. Penso que este conceito de ética esbarra na chamada responsabilidade social das empresas e no que hoje podemos chamar de Desenvolvimento Sustentável. Segundo o relatório de Brundfland de 1987, o desenvolvimento sustentável é um processo de transformação no qual a exploração dos recursos, a direção dos investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional se harmonizam e reforçam o potencial presente e futuro, a fim de atender às necessidades e aspirações futuras. O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras atenderem suas próprias necessidades, isto é, não podemos colocar em risco nossa perpetuação conforme apontado por Hans Jonas.

Apesar de sabermos que várias empresas acabam tendo um grande poder em relação ao ambiente em que atuam, isso não significa necessariamente que seus gestores formulem perguntas acerca do possível impacto da sua empresa no ambiente natural e social. Buscar as implicações políticas e práticas de suas ações, questionar sua responsabilidade social torna-se um caminho possível para ações mais éticas dos gestores, impactando em ações de responsabilidade social das empresas.

O que é Responsabilidade Social das Empresas (R.S.R)?

O conceito de Responsabilidade Social surge de forma mais sistemática, mas ainda muito limitada, nos anos 50 e 60 na França e Estados Unidos, segundo autores como Ashley (2002) e Melo-Neto e Froes (1999). O que se buscava neste momento era a manutenção da legitimidade das atividades da empresa, da gestão da sua imagem e sua visibilidade no mercado.

Mas esse conceito de Responsabilidade Social veio sofrendo mudanças para responder aos desafios que foram se apresentando no ambiente interno e externo às organizações. Conforme discutido por John Schermerhorn (1999), de uma maneira mais ampla, Responsabilidade Social diz do grau de comprometimento da empresa com seus vários Stakeholders (atores com que se relaciona: fornecedores, sociedade, clientes, empregados, acionistas, concorrentes, etc.). Esse conceito se torna complexo quando pensamos que não há uma determinação do “grau de comprometimento” das empresas; há uma liberdade de criação e da flexibilidade dessas ações.

Para melhor delimitar isto, Aligleri e Borinelli (2001) sistematizam 3 formas diferentes para pensar os limites do grau de “comprometimento das ações” de responsabilidade Social das Empresas

1a- A R.S.E como uma obrigação social, visa à maximização dos lucros, busca satisfazer apenas as obrigações legais e as atividades empresariais são centradas em critérios econômicos; (visão de marketing de causas – maximiza lucros). Por exemplo, quando uma empresa registra seus funcionários, não contrata mão-de-obra infantil, paga seus funcionários em dia. Para alguns, ela já estaria sendo Responsável Socialmente, mas podemos dizer que nada além do que é legal.

2a- A R.S.E como forma de buscar aprovação, envolve basicamente, dois grupos de ações: uma que é a satisfação das obrigações legais e outra que é a satisfação das obrigações sociais e que afetam diretamente a empresa, pensando a empresa como membro da sociedade (visão utilitarista). Nesta visão de Responsabilidade Social teríamos a idéia de que a empresa deve se envolver apenas com o que é legal e com o que afeta diretamente suas ações. Pode-se citar aqui as ações das empresas apenas na sua comunidade. Isto é, se a organização vai investir em meio ambiente ela o faz buscando atender aspectos legais e ao mesmo tempo reduzir o impacto de suas atividades no local onde está situada, mas não há uma preocupação em agir além do seu ambiente. Ela acaba focando muito as suas questões legais e da estratégia do negócio numa perspectiva espacial, tornando sua estratégia também limitada, uma vez que, em economias globalizadas, o negócio de uma empresa não pode ser tão determinado pelo espaço.

3a- A R.S.E dentro de uma visão sistêmica dos stakeholders, segundo Zadek (1998), ocorre quando as empresas buscam satisfazer as obrigações legais e sociais, mas também visam desenvolver uma rede de relacionamentos entre os envolvidos e antecipar questões sociais e ambientais para resolvê-las no presente, evitando que se transformem em problemas futuros para a sociedade. Vejo aqui uma aproximação dessa visão com a idéia de Desenvolvimento Sustentável já apresentada. Essa visão, bem mais ampla, mostra uma preocupação das organizações em irem além da gestão do projeto hoje, mas com sua perpetuação em longo prazo, agregando valor a todos os atores sociais envolvidos, como também acreditam Pastron (1997), Aktouf (1996), e Chanlat (1999). Outros autores, como Kanaane (1999), McWilliams e Siegel (2001), Duarte e Dias (1986), reforçam nessa justificativa a importância do poder que a empresa obtém na sociedade, devendo exercer seu poder para melhorá-la, tendo, assim, obrigação de demonstrar sensibilidade social. Essa abordagem é bem mais difícil de se ver na prática, uma vez que muitos gestores tendem a analisar as ações a curto prazo, de forma imediatista, tendo dificuldade de desenvolver uma visão estratégica e ampla com seu ambiente, ações estas que são bem mais duradouras.

O que se pode pensar é que lucro e ações sociais não são antagônicos; ao contrário, a competência organizacional é reconhecida também pela abrangência e pela complementaridade das ações e dos resultados que concretizam sua gestão. Avaliar e pensar os impactos da organização na sociedade e suas possíveis contribuições para uma sociedade mais justa se tornam fundamentais. Dentre as várias ações de R.S.E. destacam-se: cultura, educação, esporte, lazer, meio ambiente, saúde, urbanização e as próprias políticas de recursos humanos.

Na pesquisa que coordenei sobre “Ética no ambiente organizacional: avaliando políticas e ações de responsabilidade social em empresas em Minas Gerais”, constatamos que educação e cultura são as principais áreas de envolvimento das empresas, e hoje eu gostaria de focar mais a cultura e seus desdobramentos para o desenvolvimento sustentável de uma sociedade.

Em 23 de dezembro de 1991 foi criada a Lei No 8.313, a chamada lei Rouanet, que se tornou um importante incentivo para as empresas investirem em cultura através da destinação de imposto de renda. Através desta lei constata-se uma importante possibilidade de ação de Responsabilidade Social, mas observa-se que muitas empresas desconhecem o alcance das ações possíveis a serem realizadas aproveitando o incentivo fiscal. Neste sentido, é importante que se conheça a lei e se compreenda a importância da cultura para uma sociedade. Essas ações na área cultural dizem respeito ao patrocínio ou apoio a eventos, como: shows musicais, concertos, espetáculos teatrais, assim como manutenção do patrimônio público e privado, isto é, restauração de igrejas, casas de cultura, museus e acervos, e palestras de formação de público.

A cultura como: Construção da Subjetividade e Democracia.

Numa perspectiva antropológica e simbólica, Geertz (1978) acredita que a cultura é um conjunto de mecanismos simbólicos para o controle do comportamento, de informações extra-somáticas, fornecendo o vínculo entre o que os homens são intrinsecamente capazes de se tornar e o que se tornaram, um a um.

O conceito de cultura tratado aqui se refere a tudo aquilo que um grupo produz que se reflete na sua identidade, na construção de seus valores e normas, no que é desenvolvido pelo Homem. Mas, conforme já discutido por Walter Benjamim, não se pode tratar a noção de identidade como algo homogenizante e padronizante. Algo que se torna padrão, pode muitas vezes se tornar banalizado, universal, mas a cultura não se pretende a ser isto, a fazer sentido para todos. Isto seria mais da ordem do entretenimento, da cultura de massa, que muitas vezes enfoca mais a técnica do que o conteúdo, tornando-se algo repetido e vazio.

Walter Benjamim ainda explicita o conceito de entretenimento. Este pode ser pensado como algo que pode distrair, desviar nossa atenção. Segundo o autor, seria assim, uma “espiritualização forçada de diversão”,  ou seja, da ordem do espetáculo. Tudo tem um significado e uma eficácia, o espetáculo removeria o non-sense (ou sem–sentido), gerando a ilusão de um mundo harmônico e perfeito. Divertir e entreter, passam a ter um sentido de esquecer o sofrimento, de esquecer o que pode nos incomodar, pode ser pensado como uma fuga, uma liberação do pensamento, ou mesmo uma negação do pensamento.

Já a cultura, diferentemente do entretenimento, deve ser pensada a partir de um conjunto de bens culturais: a literatura, a pintura, as diversas formas de arte, a filosofia, que têm como elemento a elaboração, o imaginário, a sensibilidade de uma época, fundamentais para criar laços de convivência. Por outro lado, a própria produção cultural pode ser uma forma para lidar com nosso “mal-estar na civilização”, conforme pensado por Freud.  Isto é, ela nos permite elaborar, construir novos sentidos, novas “saídas” para nossas angústias. Ela é um elemento importante da construção de nosso mundo interno, da nossa subjetividade. Quanto mais questionadora, quanto mais elaborada simbolicamente, mais rica e complexa, quanto mais diversa, maior a possibilidade de sentidos, mais rico será nosso suporte para construção da subjetividade dos indivíduos. Uma vez que a subjetividade é marcada e influenciada pelo contexto cultural, social e político.

Contrariamente a essa noção de cultura, é o que vemos, por exemplo, na literatura de auto-ajuda. A literatura de auto-ajuda tende a banalizar a complexidade humana. Mas, nem todo livro de auto-ajuda é ruim, o problema da auto-ajuda é levar o leitor a acreditar que as coisas são muito simples, verdadeiras mágicas. Simplificar, metaforizar, desenhar, ilustrar, sempre é bom para a gente compreender, mas é preciso dialogar com estas formas, criar um sentido próprio, individual e subjetivo, e, ainda, sustentar o que fica sem sentido. O que se percebe hoje é um exagero na exigência de entretenimento e relaxamento. Por isso, muitos dizem “ah não… aquele filme a gente tem que pensar!”, “Ah não gosto de ler livro pesado”, “Gosto de ler tudo aquilo que entendo! Quero ler coisas simples!” E essas coisas, de tão simples, se tornam mágicas e empobrecedoras da subjetividade humana.

Se extrapolarmos isto para a sociedade, podemos dizer que, quanto mais rica a cultura de um país, maior a possibilidade de desenvolvermos a democracia e a cidadania dos indivíduos. Se entendermos por democracia uma forma de convivência entre as pessoas, de maioridade política, em que cada um é emancipado porque é capaz de refletir por si mesmo, permitindo a livre circulação das opiniões e dos interesses, o enfrentamento dos conflitos, a instituir direitos e exercê-los, todos dependendo de uma lei comum, então, poderemos pensar assim, que a cultura fortalece os laços de inserção na sociedade. Quanto mais frágil, mais banal e homogenizante a cultura de uma sociedade, menos suporte simbólico teremos e mais ao sabor dos conflitos que se estabelecem dentro dela ficaremos, podendo nos tornar assim refém desses conflitos, em vez de criamos formas criativas de resolvê-los.

Na sociedade em que vivemos hoje, a chamada Sociedade do Espetáculo, conforme denominada por Debord (1997), ou da Era do Vazio, conforme Lipovetsky (1989), há uma predominância da importância da imagem sobre o objeto, da forma sobre o conteúdo. Há uma busca constante por prazer, e neste contexto a produção cultural, muitas vezes, acaba oferecendo produtos e serviços facilitadores para se manter esse prazer. Temos, assim, esta situação delicada: uma sociedade “sedutora”, que busca a “leveza” do “espetáculo” onde a produção cultural tende a ser uma repetição de padrões, idéias e comportamentos. Onde tudo busca ser tão dócil que não há surpresas e nem non-sense, havendo pouca possibilidade de elaboração simbólica, pouca reflexão e assim, muito da produção cultural se apresenta como dada, pronta para ser docilmente consumida.

A cultura como um dos principais pilares de investimento em ações de responsabilidade social das empresas.

Nesta “sociedade do espetáculo” as empresas vêm investindo em cultura como um de seus principais focos de responsabilidade social. Aí nos resta perguntar se elas estão sabendo em que estão investindo. Refletir se o investimento em cultura muitas vezes acaba sendo feito como instrumento apenas de marketing, de divulgação da marca das empresas, sem se levar em conta o que se pretende com aquele investimento para a sociedade. Neste sentido, pode-se investir muito mais em entretenimento, que já é consagrado e de fácil assimilação pela grande população, ao invés de buscar investimentos que resgatem a identidade de um grupo e de um país. É o caso, por exemplo, de empresas que investem em peças de teatro que tenham atores que estão na televisão. Isto não deveria ser o ponto importante para determinar o investimento em cultura, podendo ter pouca chance que essas ações se desdobrem em possibilidades de desenvolvimento de uma sociedade. Neste sentido, corremos o risco de não estarmos focando no desenvolvimento sustentável através da cultura, mas, ao contrário, sendo capazes de apenas produzir “do mesmo de uma sociedade”, focando mais o entretenimento e o lazer. Como disse antes, não que eles não sejam importantes; são importantes enquanto possibilidades de fruição, mas a abrangência das ações culturais são mais permanentes e geram possibilidade de construção de identidade cultural forte. Uma vez que as empresas são apontadas como parcerias na solução dos investimentos culturais, elas se tornam responsáveis pelas conseqüências de seus investimentos e deveriam avaliar o desdobramento social de suas ações.

Nesse sentido, para se investir em cultura é preciso discutir constantemente o que seja cultura, para que se possa ter ações mais amplas e duradouras para a sociedade. Além disso, cabe às organizações auxiliarem num aspecto também muito difícil de ser gerenciado no que tange à cultura, que é a acessibilidade. Neste sentido, deve-se atentar para que não se façam apenas ações isoladas, eruditas e para poucas pessoas. Durante a análise de investimento em ações culturais, dever-se-ia procurar entender como o projeto irá atingir as pessoas em geral, quais as maneiras de facilitar a assimilação, a compreensão e o acesso a vários públicos e aos bens culturais.

Todo nosso esforço, ao montar este projeto da Estação do Saber de debate cultural dentro de um shopping, foi o de criar um espaço onde as pessoas fossem capazes de refletir sobre alguns conceitos. Estes perpassam os bens culturais, mas, muitas vezes, não são compreendidos e, conseqüentemente, acabam sendo afastados; dificultam, assim, o próprio consumo e acesso aos bens culturais. A idéia é resgatar a noção de conteúdo e não apenas de forma. Aspecto fundamental para se pensar o que seja cultura e sua importância na nossa sociedade. Contudo, nosso desafio é grande. Muitas vezes somos cobrados para que nossos palestrantes sejam divertidos, que tenham uma dinâmica que agrade ao público. Claro que isto facilitaria a comunicação e assimilação do conteúdo, mas não podemos nos ater à técnica. Podemos ter ótimos palestrantes, que atraem multidões, mas que não conseguem falar de um lugar consistente, de um saber. Com pouco conteúdo, eles nos seduzem e nos divertem, mas não podemos pensar que isto seja suficiente para se tornar um projeto cultural, nem de uma proposta de educação através da cultura. Não vou me estender neste ponto, mas penso que a cultura deve ser pensada a partir da educação, e que talvez a educação também não devesse ser pensada dissociada da cultura. Por isto, nosso maior desafio é auxiliar o público em geral a entender o que é cultura e suas mais diversas manifestações, mesmo que num primeiro momento tudo possa nos parecer difícil e sem sentido.

Por fim, ainda teríamos que pensar que a avaliação ou financiamento de um projeto cultural passa por uma perspectiva ética, já enfocada anteriormente: será que estou fazendo aquilo em que acredito? Como repercute na sociedade este projeto? Quais os seus desdobramentos? Cabe aos empresários fazerem essa reflexão no sentido de orientar seus investimentos para a responsabilidade social cultural, enquanto nós, como agentes de projetos culturais, buscamos a construção de novas formas de acesso e democratização da cultura e, quem sabe, de educação? Nosso papel tem sido o de envolver as pessoas e as empresas para encontrarmos, ou mesmo inventar, novos espaços para a circulação do saber, buscando, além do pensar e falar, uma dimensão ético-política, para que possamos ter uma sociedade mais humana, com cidadãos mais envolvidos com a realidade e com a criação de novas soluções de um bem-estar possível diante das nossas desigualdades.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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4 comentários

  1. elizangela andre disse:

    Ola, estou fazendo um trabalho escolar sobre cultura social.
    E gostaria de receber por e-mail algo sobre cultura social
    algo que comprementasse meu trabalho

    OBRIGADO

    ELIZANGELA

  2. Estação do Saber disse:

    Olá Elizangela, incluimos seu email na nossa lista de newsletter. Em breve você receberá as novidades.
    Continue nos acompanhando e não deixe de ir à primeira edição da Estação Pátio, no próximo sábado às 11h no Pátio Savassi.
    Esperamos você!

  3. Sandra Brito disse:

    Estou a fazer um trabalho de Tese de fim do curso, sujo o tema, é Responsabilidade Social /Cultura. gostarias de saber se tem algo relacionado com este tema e podessem enviar por e-mail. Obrigado Sandra Brito

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