A reinvenção dos espaços urbanos: cultura, civilidade e lugares de consumo

2 de abril de 2012

Júlia Andrade Ramalho-Pinto[i]

O tempo e o espaço na modernidade líquida

Vivemos num tempo onde o instante se coloca a nós como a unidade a ser vivida. Queremos que as coisas aconteçam no agora, não temos tempo para falar e pensar no ontem e nem no amanhã. Vivemos num tempo do instante: de mensagens instantâneas, de decisões instantâneas, de vida instantânea. Cada vez mais munidos de tecnologia, (vejam o que nos proporcionam nossos telefones conectados, agora, à internet) temos a sensação de que nada pode demorar mais do que alguns segundos para acontecer. A nossa percepção do tempo mudou. Com o avanço da tecnologia, as distâncias diminuíram e o tempo é cada vez mais vivido no presente, sendo o instante a sua realização última. Precisamos viver intensamente o hoje, vivemos no presentismo. Assim, vamos nos prendendo cada vez mais ao presente, enganando a nós mesmos para que o futuro não chegue.

A modernidade marca o embate do tempo contra o espaço. Nela o tempo é a ferramenta da conquista de espaço e da apropriação de bens, assim acelerar o movimento é ocupar espaço. Nessa modernidade o tempo não confere valor ao espaço e nenhuma parte deste é privilegiada, todas podem ser alcançadas a qualquer momento. Neste sentido, há na modernidade uma irrelevância do espaço – disfarçada de aniquilação do tempo. A modernidade é líquida (Bauman, 2001). Dessas duas variáveis – tempo e espaço – é sobre o último que iremos nos debruçar, e investigar possíveis reinvenções. Como pensar nos espaços de consumo para além do próprio consumo? É possível reinventar aí um lugar para civilidade e cultura?

A civilidade e o espaço urbano

O que é o espaço urbano (a cidade)? Podemos pensar que é um lugar onde estranhos têm a chance de se encontrar. Sennett (1978) acredita que este encontro tem características específicas como: não há o antes e nem o depois do encontro, é um evento sem passado e sem futuro, uma história para não ser continuada. Neste sentido, a vida urbana exige uma atividade social sofisticada, que ele denomina civilidade.

A civilidade protege as pessoas umas das outras, funcionando como uma máscara que permite uma sociabilidade (distante das circunstâncias de poder, do mal estar e dos sentimentos privados das pessoas). A civilidade tem a função de proteger o outro de nosso peso existencial e, assim, a praticamos esperando que as outras pessoas também nos poupem de seu peso. Pode se pensar que ela, como a polidez e a cordialidade, são formas importantes e necessárias de convivência na sociedade da imagem e do espetáculo (Debord, 1997). Ela é a capacidade de interagir com estranhos sem utilizar essa estranheza contra eles.

Assim, qual seriam os meios urbanos para sermos civis? Quais os lugares capazes de propiciar às pessoas o compartilhamento como personae publicas (do exercício da civilidade)? Bauman (2001) acredita que vivemos num mundo com mais espaços urbanos e com menos espaços civis. Nossa reflexão aqui avança no sentido de sermos capazes de criar e desenvolver espaços que proporcionem a aprendizagem dessas habilidades de civilidade.

Há muitos lugares nas cidades contemporâneas nomeados de espaços públicos, que Bauman (2001) distingue e exemplifica em duas grandes categorias, que ele não denomina. Irei nomeá-las espaços de atravessamento e espaços de consumo. Os espaços de atravessamento têm como grande exemplo La Défense, em Paris. Ali impera a falta de hospitalidade, tudo que se vê inspira respeito e ao mesmo tempo desencoraja a permanência. Um espaço imponente e inacessível, onde não há bancos nem árvores. A idéia predominante é de forçar o atravessamento do espaço, mas jamais ocupá-lo.

Na segunda categoria, a de espaços de consumo, o habitante da cidade é reduzido à condição de consumidor: ele compartilha espaços físicos de consumo, salas de concertos, exibições, pontos turísticos, aeroportos, cafés e shoppings, sem qualquer interação social real (Uusitalo, 1998). Esse espaço encoraja a ação, mas não a interação. Compartilhar o espaço físico com outros atores dá importância à ação, corrobora o ato e justifica-o sem mais razões. É o que se traduz na frase “eu vou (ou faço) porque todo mundo vai (ou faz)”. Bauman (2001) é enfático: “A tarefa é o consumo, e o consumo é um passatempo absoluto e exclusivamente individual, uma série de sensações que só podem ser experimentadas _ vividas _ subjetivamente”. O lugar pode até estar cheio de pessoas, mas não há uma ação coletiva, os encontros são breves e superficiais.

A reinvenção dos espaços de consumo: O projeto de formação cultural em um shopping

O Projeto surgiu como uma idéia de levar a cultura para onde o povo está. Observamos que antes as pessoas se juntavam em praças e igrejas para se encontrar e socializar e hoje os shoppings é que têm sido o principal lugar de socialização. Não há dúvida de que, na sociedade contemporânea e líquida, os espaços de consumo se tornam uma referência à sociedade, se alastrando e alojando por todo o espaço urbano. A idéia surgiu para repensar a lógica estabelecida.

Um espaço de consumo pode ser um espaço sem lugar (ou lugar sem lugar), isto é, um lugar purificado, onde diferenças são higienizadas e não são mais ameaças (Bauman, 2001). Aí se exclui o risco da aventura, há uma sobra de divertimento. Neste sentido, há divertimento e não cultura, lembrando a idéia de entretenimento discutida por Benjamin (1987). Nestes espaços busca-se um equilíbrio perfeito entre liberdade e segurança. Assim, se primordialmente o espaço de consumo invade o espaço urbano, como repensar o espaço de consumo sendo invadido por ações de cultura e educação? Isto poderia desdobrar-se em ações para o desenvolvimento da civilidade? Quais seriam as consequências de ações de reflexão, de encontros subjetivos (ou de estranhamento – Freud, 1976), para este espaço e para seu público?

O primeiro passo importante foi pensar o lugar no qual seria desenvolvido o projeto de formação de público. Estudamos e nos aliamos a um shopping em Belo Horizonte. Este se caracterizava por ser um shopping novo (tinha um ano de funcionamento) e se diferenciava por apostar em não ser apenas um espaço de consumo. Em seu planejamento estratégico, moda, cultura, lazer e entretenimento orientavam suas ações.

Nas conversas de planejamento, pensou-se que poderíamos ocupar um espaço vazio do shopping, isto é, um anfiteatro que não havia sido montado, uma escadaria numa área quase esquecida, sem ainda ter sido finalizada sua obra. Os espaços vazios são sem significado, como lugares não colonizados, que sobram depois da reestruturação de espaços realmente importantes (Bauman, 2001). Eles não existem no mapa mental, são áreas da cidade que permanecem sem sentido. Aquela era uma área ainda sem um projeto e uma destinação definida. Embora estivesse no seu plano e funcionamento, ela ainda não tinha um planejamento de como iria funcionar.

Resolvemos, então, entrar num espaço vazio e criar um projeto educacional e cultural de formação de público (ou platéia). Isto é, um projeto que buscava promover o debate informal de idéias, de forma interdisciplinar e fora do ambiente acadêmico.  Assim, as pessoas teriam a oportunidade de aprimorar o conhecimento cultural, melhorando a compreensão da realidade através da interatividade de conteúdos sobre cultura, filosofia, arte, literatura, música, teatro, psicanálise/psicologia. Além disso, os debates incentivariam a comunicação entre públicos diversos, de gerações diversas, como, também, fortaleceria a atividade intelectual como opção de lazer, auto-desenvolvimento e realização pessoal.

Por acreditar no caráter transformador da cultura e da educação, propusemos a reinvenção de um espaço de consumo (shopping), como um lugar de o acesso à informação cultural, democratizando e ampliando, assim, a rede cultural. Pensamos em algo como profanar (Agamben, 2007) o espaço de consumo, transformá-lo em um espaço de reflexão. Nosso público alvo vem sendo constituído por aqueles que buscam conhecimento e cultura num espaço democrático onde circula o saber de forma acessível a todos.

O Projeto iniciou-se em fevereiro de 2006, e está em seu quarto ano de realização. A agenda de eventos foi variada, a cada mês houve um tema sendo debatido e a cada sábado um convidado. O público médio tem sido de 90 pessoas.  O perfil dos palestrantes tem sido variado, mas sempre mestres, doutores ou pessoas com notória especialização.

O Projeto e a civilidade

O projeto vem conseguindo criar no espaço de consumo (um shopping) reflexões que apontam para ações de civilidade. Se hoje os espaços urbanos nos convidam a atravessá-los ou apenas irmos em busca do consumo, este projeto convida seus participantes ao convívio com o estranho e ao exercício da civilidade. As palestras de cunho educativo/cultural são importantes provocadoras de reflexão e suscitam debates. Ali busca-se a proximidade física e o intercâmbio com estranhos. Através de pesquisas, nós monitoramos o que as pessoas têm absorvido das palestras e debates. Além disso, recebemos diversos depoimentos espontâneos através de e-mails ou contatos pessoais, além do SAC (serviço de atendimento ao consumidor) do shopping. Assim, constatamos estar desenvolvendo um público mais crítico, além de fornecer informações culturais relevantes e transformadoras.

A principal contribuição do projeto é o convite ao público para conviver com a diferença de idéias. O gosto por essa convivência não é fácil de se desenvolver e, muitas vezes, não é algo que se consegue fazer sozinho. Acreditamos que essa capacidade é uma arte e que, como toda arte, requer estudo e exercício. Conduzir um projeto educacional e cultural em um shopping é desenvolver a possibilidade, para os freqüentadores, de enfrentarem essa pluralidade de idéias. O projeto consegue convidar seu público a, estando num espaço de consumo, ir em direção ao outro, ao diferente, ao estranho, ao estrangeiro.

Por fim, pode-se pensar que, se conseguimos alterar a interação com o espaço, também alteramos a interação com o tempo.  Isto é, um espaço que permite a possibilidade de encontro com o diferente e estranho é um lugar que promove uma pausa no fluxo contínuo e líquido do tempo. Diferentemente da vivência no presentismo, onde tudo parece ser vivido no instante, o tempo do sentir e de ser tocado é o tempo do eterno. Por um lapso de tempo, aquilo que nos toca, e nos lembra que somos humanos, é o que retorna ciclicamente e se atualiza (Miller,2000), que nos distancia-e-aproxima (Freud: estranhamento),  permitindo-nos desvelar um outro lado da realidade diária, um lado constantemente ao alcance, mas normalmente oculto à vista e impossível de tocar. Reinventar os espaços urbanos é criar uma possibilidade de uma experiência atemporal, de estranhamento, de mudança, de civilidade. Promovendo estes manejos do espaço e tempo, buscamos provocar os indivíduos ao engajamento e às mudanças. Resta saber se serão capazes.

AGANBEM, G. Profanações. Rio de Janeiro: Boitempo, 2007

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2001

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. São Paulo: Brasiliense,1987

DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: contraponto, 1997

FREUD, Sigmund. O Estranho. In: obras completas vol XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1976

MILLER, Jaques Alain. Erótica do Tempo. Rio de  Janeiro: Contra capa livraria, 2000

RAMALHO-PINTO, Júlia A. Cultura é atitude: responsabilidade social e cultura, in RAMALHO-PINTO, Júlia A. (org) A cultura vai ao shopping. BH: Argvmentvm, 2008.

SENNET, Richard. The fall of Public Man: On the Social Psychology of Capitalism, Nova York: Vintage Books, 1978.

UUSITALO, Liisa. Consumption in postmodernity, in Marina Bianchini (org). The Active Consumer, Londres: Routledge, 1998.

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[i] Sócia-diertora da Estação do Saber, curadora e coordenadora do Projeto Estação Pátio Savassi, professora universitária em cursos de graduação e pós-graduação, mestre em administração (UFMG), administradora (UFMG), psicóloga  (FUMEC-MG).Artigo publicado na revista eletrônica digital Diadorim Cultural – arquitetura, cultura, comunicação e turismo – issn:2178-2938 No 1, #1,A Rua Como Palco de Manifestação Cultural. http://www.diadorimcultural.org/001/index.php

Um comentário

  1. Cristina disse:

    Espetacular o projeto de vocês! Parabéns! Espero poder comparecer numa destas próximas 6as. feiras! Pulsando… rs Abraço!

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